domingo, julho 16, 2006

Em busca do tempo perdido (pelos outros)

Estava eu num restaurante quase vazio, ao balcão, sossegada e tranquila, quando observo um casal não muito novo, mas muito entusiasmado e muito feliz.
Disfarcei, claro, apenas o suficiente para ver que toda aquela agitação se devia a terem pedido uma fruta tropical, que há uns anos era rara, creio que era manga.
Ao ver que estava a olhar para eles, o homem perguntou-me se eu queria um bocadinho e a mulher insistiu. Percebi logo que aquele era um momento especial e aceitei, claro. O empregado do restaurante partiu então a fruta em três, colocou-a em três pratinhos e assim mesmo onde estávamos, longe eu deles, comungámos da manga com deleite.
Porque ele começou logo a contar:
- Era no tempo da guerra colonial em Angola. Andávamos nós há vários dias sem comer e quase sem beber, na torreira do sol, estafados, esfalfados, mortos…
E eis senão quando… vemos uma árvore carregadinha de frutas maduras e suculentas, que era comer e beber ao mesmo tempo, Senhor do Céu!
É claro que trepámos todos à árvore, sem pensar em mais nada. Imaginem vocês este sabor, este mesmo, exactamente, este suminho a escorrer-nos pela cara e pelo queixo…
Eu e a outra senhora já tínhamos o sumo de manga a escorre-nos pelos cotovelos e pelo pescoço, esquecidas de que estávamos num local público e de que nem nos conhecíamos e nunca nos tínhamos visto antes, mas… eis senão quando…
- E de repente aparece o inimigo e desata às rajadas de metralhadora. Alguns caíram logo mortos, mas eu, a mim só me apetecia continuar ali, dependurado da árvore e a comer o fruto doce, mesmo que no momento após esse devesse ali cair! (como dizia... quem?!)
Eu e a outra mulher ficámos de repente o olhar uma para a outra, assustadas, com vontade de fugirmos ambas para debaixo da mesa, ainda com a manga a escorrer-nos pelo queixo…
Afinal, quem é o inimigo?
O meu gostar de algumas frutas tropicais tem a ver com esta história, aquele prazer efémero, recuperado de um tempo que nunca foi o meu.

4 comentários:

Laurindinha disse...

:)

Mariana disse...

Oi Nádia, estava eu a arrumar a estante do meu marido quando deparei com um livro chamado Poetas Novos de Portugal. Novos, mas não tanto, pois que a dedicatória do livro está datada de 1944.Gostei muito de várias poesias, sendo que já postei uma de um poeta chamado José Régio.Não sei se é conhecido em Portugal, conheço pouco da poesia portuguesa.
Vou pesquisar o livro com calma, pois tem vários outros poetas.
Que você tenha uma ótima semana.Beijos. Mariana

Nádia Jururu disse...

José Régio é muito conhecido, foi um marco da nossa poesia. Leia em particular "Cântico Negro", o seu poema mais conhecido, quase o único que faz dele um poeta famoso, ainda hoje. Creio que a Betânia tem um disco de vinil em que declama esse poema, de forma maravilhosa. E também tem alguns de Pessoa. Gostaria de ter esses discos, mas como vou em breve ao Brasil, São Salvador da Baía, talvez os arranje.
Por favor, não contem aos meus vizinhos que vou para tão longe! E creio que V. é de São Paulo, onde, aliás, tenho família.

Nádia Jururu disse...

Laurindinha, viu o põema " sopa de ervilhas"?