segunda-feira, janeiro 14, 2019

Oração de Santo Agostinho

1. Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova… Tarde Te amei! Trinta anos estive longe de Deus. Mas, durante esse tempo, algo se movia dentro do meu coração… Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava… Mas Tu Te compadeceste de mim e tudo mudou, porque Tu me deixaste conhecer-Te. Entrei no meu íntimo sob a Tua Guia e consegui, porque Tu Te fizeste meu auxílio. 2. Tu estavas dentro de mim e eu fora… “Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo e ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior”. Durante os anos de minha juventude, pus meu coração em coisas exteriores que só faziam me afastar cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas dentro e eu fora! Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Estavas comigo e não eu Contigo… 3. Mas Tu me chamaste, clamaste por mim e Teu grito rompeu a minha surdez… “Fizeste-me entrar em mim mesmo… Para não olhar para dentro de mim, eu tinha me escondido. Mas Tu me arrancaste do meu esconderijo e me puseste diante de mim mesmo, a fim de que eu enxergasse o indigno que era, o quão deformado, manchado e sujo eu estava”. Em meio à luta, recorri a meu grande amigo Alípio e lhe disse: “Os ignorantes nos arrebatam o céu e nós, com toda a nossa ciência, nos debatemos em nossa carne”. Assim me encontrava, chorando desconsolado, enquanto perguntava a mim mesmo quando deixaria de dizer “Amanhã, amanhã”… Foi então que escutei uma voz que vinha da casa vizinha… Uma voz que dizia: “Pega e lê. Pega e lê!”. 4. Brilhaste, resplandeceste sobre mim e afugentaste a minha cegueira. Então corri à Bíblia, abri-a e li o primeiro capítulo sobre o qual caiu o meu olhar. Pertencia à carta de São Paulo aos Romanos e dizia assim: “Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,13s). Aquelas Palavras ressoaram dentro de mim. Pareciam escritas por uma pessoa que me conhecia, que sabia da minha vida. 5. Exalaste Teu Perfume e respirei. Agora suspiro por Ti, anseio por Ti! Deus… de Quem separar-se é morrer, de Quem aproximar-se é ressuscitar, com Quem habitar é viver. Deus… de Quem fugir é cair, a Quem voltar é levantar-se, em Quem apoiar-se é estar seguro. Deus… a Quem esquecer é perecer, a Quem buscar é renascer, a Quem conhecer é possuir. Foi assim que descobri a Deus e me dei conta de que, no fundo, era a Ele, mesmo sem saber, a Quem buscava ardentemente o meu coração. 6. Provei-Te, e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me, e agora ardo por Tua Paz. “Deus começa a habitar em ti quando tu começas a amá-Lo”. Vi dentro de mim a Luz Imutável, Forte e Brilhante! Quem conhece a Verdade conhece esta Luz. Ó Eterna Verdade! Verdadeira Caridade! Tu és o meu Deus! Por Ti suspiro dia e noite desde que Te conheci. E mostraste-me então Quem eras. E irradiaste sobre mim a Tua Força dando-me o Teu Amor! 7. E agora, Senhor, só amo a Ti! Só sigo a Ti! Só busco a Ti! Só ardo por Ti!… 8. Tarde te amei! Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu Te amei! Eis que estavas dentro, e eu, fora – e fora Te buscava, e me lançava, disforme e nada belo, perante a beleza de tudo e de todos que criaste. Estavas comigo, e eu não estava Contigo… Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a Tua Luz afugentou minha cegueira. Exalaste o Teu Perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, Te desejei. Eu Te provei, Te saboreei e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos por Tua Paz! Santo Agostinho, Confissões 10, 27-29.

segunda-feira, agosto 20, 2018

Florença







Cenas da vida da Beata Umiltá.

Pouco conhecida, est beata, o painel representa cenas da sua vida de santa. 
A obra encontra-se na galeria Uficci, em Florença. 
Autor: Pietro Lorenzetti

sexta-feira, julho 20, 2018

Tâmara

O homem consegue vencer deserto, saindo das areias sequioso de água, esfomeado de pão e, ao estender as mãos suplicantes, recebe nelas o mais doce fruto da criação.

 Como uma dádiva do calor e do pó:
 A tâmara.

sexta-feira, junho 29, 2018

O Céu e a Terra, em Lisboa




Foto tirada de janela de Lisboa, onde se vê ser mais importante o céu do que a terra.



"Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que ha gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura." - Miguel Torga

segunda-feira, junho 18, 2018

"O espantoso esplendor do mundo"



"O espantoso esplendor do mundo"* - Lisboa, anoitecer do dia de Santo António.

* Expressão poética de Sophia de Mello Breyner.

quinta-feira, maio 10, 2018

"Espiga" Raminho simbólico de flores e de folhas, sem faltar a espiga de trigo





Dia da Espiga, quinta feira da Ascensão, uma quinta de maio. Compra-se espiga, que se dependura na casa, depois de ter retirado a espiga do ano anterior. Que cumpriu a sua função de dar sorte à casa.

Ditado popular:

“Se chover na Quinta-feira da Ascensão, as pedrinhas darão pão.”

Mas não choveu, este ano.

Simbologia da Espiga

Espiga de trigo (em número ímpar): pão;
Malmequer: ouro e prata;
Papoila: amor e vida;
Oliveira (um ramo): azeite e paz; luz, divino;
Videira (1 ramo): vinho e alegria
Alecrim: saúde e força.

A tradição tinha também um pãozinho pequeno, mas essa parte foi esquecida. Algumas poucas vendedoras de espigas trazem o pãozinho para as suas freguesas, a grande maioria não. 

terça-feira, abril 10, 2018

"Da queda erguida d'água-vida tão contente e são"



Canção muito bela, tanto pela música como pela letra.
Ambos de Caetano Veloso.
Letra

"A queda-d'água ergueu-se à minha frente
De repente...
Tudo ficou de pé eternamente
A floresta, a pedra, o vento vertical do abismo

E o senhor que anima esse ambiente
Ficou comigo...
Eu sou potente e contenho a visão
Da queda erguida d'água-vida tão contente e são
Havia ali a presença toda sã
De minha irmã e coisa mais que azul
A lua, lua, lua, lua, lua
Sobre um pinheiro do sul"