quinta-feira, março 22, 2012

O desencobrimento da Terra (monólogo)


Personagem: mulher que ora se representa a ela mesma, ora simboliza a terra portuguesa, abandonada pelos que partiram e esperando o seu regresso. As frases destacadas em negrito poderão ser acompanhadas por um côro, pois este monólogo exterior é um diálogo interior.

Todos eles partiram e eu fiquei. Fiquei aqui, nesta terra que me parecia imensa, infinita. Agora sei que é pequena, insignificante como um grão de areia ou um torrão que aperto nos meus dedos e esmago e não é nada. Todos ou quase todos eles partiram para o de lá dos mares, à procura doutros sóis, doutras luas e doutras mulheres. 
            Aqui semeio, aqui planto e colho, o pão que darei aos meus filhos que pari. Também eles me prendem, me impedem de partir além, à aventura pelos mares. Pedem-me o pão, não me pedem a água salgada do sonho marítimo, não me pedem que arrisque a minha vida nem querem que o faça, como fez o pai, como fez o avô que morreu no mar. Coisas bem mais prosaicas tenho que lhes dar, se sou mãe e se mulher me vejo. 
            Choro o meu marido que partiu p´ró mar, e eu aqui. E eu aqui, semeando e colhendo e comendo o pão, o pão salgado das minhas lágrimas mas não salgado das ondas que imagino e sonho e nunca vi, num sonho de aventura. 
            Esta terra, portugal chamada, prisão minha e teia de que sou a involuntária aranha, de que sou a aranha e a mosca, presa eu na rede dos meus próprios gestos.  
            Procriarei, criando aqui aquilo que todas criam, mesmo as fêmeas dos bichos: filhos e filhas. Rapazes que partirão para longe atrás dos outros que já foram, que morrerão talvez no fundo do mar antes de chegarem ao sonho e à aventura.  
            Salgadas, como as do mar, as minhas lágrimas, águas da minha alma, serão o fruto amargo do meu julgar o tempo.
             Esta terra que tão grande parecia na minha inocência, tão pequena a sei agora no meu limite de mulher...desencoberta. 
            Sonho e desespero e choro por todos aqueles que não são aqui, onde deviam ser, por mim que me julgava eterna e útil mas sem sina me vejo. Mãe de todos, telúrica, genésica de impérios a fazer, aqui me vejo reduzida a nada. 
            Pátria talvez perdida eu sou, mátria talvez esquecida, gero e gerando espero o que já nem sonhar ouso. De fugaz centelha me anima a Esperança às vezes, pátria sem homens que fiquei, mátria desencoberta, portugal chamada, perdida imaginada apenas e lembrada nas minhas noites e dias de infindável solidão. 
           Aqui me vêem! Nem já de terra e de ervas mas de pedra, erigida em estátua que ninguém procura, tombada na curva do caminho. Bandeira! Bandeira sem vento que a agite, sem cor que a simbolize no porvir. 
            Imagino-me pedra, indócil e vazia. 
           No meu amanhecer esperarei ainda: partiram os meus filhos, os meus amos, os meus fados e os meus todos amores. 
            Vazia, desértica até mesmo de mim, sem destino nem viagem que me espere, aguardo a serena morte de quem já não crê. O desespero me agita. Em ondas de desejo, desejo tudo e nada ouso.
            Sou aquela mulher e aquela mátria que ninguém ama já. Sem deuses, sem homens, sem gente, com a paciência de quem é terra aguardarei o regresso: a fuga de todos os lugares para a pátria-mãe, em séculos a vir. O retorno do desânimo que não é esperança já, antes começo de algo que não quero. 
            Retornarão um dia, em lama transformados de tanto querer ser água esta terra. Encherão o meu solo de imaginários lugares.  
           Contemplando-me, verão o que recordam, sonharão o que perderam. Vendo-me, verão outra.  
            Não só a que deixaram com saudade e ânsia, mas também as que encontraram lá longe e não existem mais, assim como as recordam: o império que perderam.
            O que de tudo isto restará serão eternas águas, desabitadas sempre, hostis à amestragem dos que as desejaram possuir, oceanos vazios de gente.  
            Água eu também gostaria de ser, a nunca possuída nem completamente achada. Marés transitórias que procurarão também no espaço, na lua distante e misteriosa, que de outros sonhos ocupará o meu espaço real. No espaço inconhecido sonharão a aventura outra vez, o sonho e o desejo. 
            E eu aqui, durante séculos terra despojada, aquela que em saudades recordaram, aquela que abandonada fica, aquela que ninguém ama. 
            Esperarei para sempre. Aqui, à beira do oceano, transbordante de desejos que não chegam até mim, mátria esquecida, terra desencoberta. 
            O meu não ser além é o espelho quebrado em que me miram, feita eu em pedaços de não ser outro lugar, mais ao norte ou mais ao sul, segundo a rota e o desígnio das suas intenções.
          Mátria mais ousada ou pátria mais fêmea ainda me desejariam, sempre diferente daquilo que fui, daquilo que serei nem posso ser.  
            Vendo-me, verão outra, sempre outras me verão sem me aceitarem como eu sou e fui, sem me verem a mim. 
            Mátria esquecida, terra-mãe desencoberta, contudo me sei desenhada nos mapas como qualquer outra. Os mapas me desenham e me apontam, naturalmente, à superfície da esfera que rola pelo espaço infinito: lugar nenhum, dos meus desencontrada, aqui me vejo reduzida a nada.

Lisboa, 30 de Abril de 1997
Graciete Nobre

Texto já publicado na revista TRIPLOV

sexta-feira, março 09, 2012

Paul Adolf Seehaus






Pintor alemão princípio do Sec. XX





Mas parece que é necessário saber alemão, como eu sei um nadinha, para perceber e para ter ouvido falar deste pintor alemão...

quinta-feira, março 08, 2012

A propósito do dia da Mulher, o direito à vida

Para celebrar o direito à vida (da mulher, por exemplo), nada como recordar esta belíssima ária de La Traviata: "Parigi, O Cara", quando Violetta Valéry está a morrer, cheia de esperança de viver



Parigi, o cara noi lasceremo,
la vita uniti trascorreremo.
de' corsi affanni compenso avrai,
la tua salute rifiorira'.
Sospiro e luce tu mi sarai,
tutto il futuro ne arridera'.

domingo, março 04, 2012

"Vamos rir, chorar e aprender"



O normal seria o gato comer o pássaro. Quem é bom? Quem é querido? Quem é corajoso?



Aqui, Leonardo Boff refere as conclusões do estudo do DNA, que todos, homens e animais partilhamos o DNA, afirmando que elas comprovam a mensagem de São Francisco de Assis: somos todos irmãos. Ou mesmo, somos todos UM.


 "Vamos rir, chorar e aprender. Aprender especialmente como casar Céu e Terra, vale dizer, como combinar o cotidiano com o surpreendente, a imanência opaca dos dias com a transcendência radiosa do espírito, a vida na plena liberdade com a morte simbolizada como um unir-se com os ancestrais, a felicidade discreta nesse mundo com a grande promessa na eternidade. E, ao final, teremos descoberto mil razões para viver mais e melhor, todos juntos, como uma grande família, na mesma Aldeia Comum, generosa e bela, o planeta Terra."
Leonardo Boff:-Casamento entre o céu e a terra. Salamandra, Rio de Janeiro, 2001.pg09.


(P.S.:Se clicar na tag abaixo "O lobo e o cordeiro", vê outras imagens encantadoras: aparecem as mensagens todas seguidas,a começar por esta) 

quinta-feira, março 01, 2012

Vois sur ton chemin


Vois sur ton chemin
Gamins oubliés égarés
Donne leur la main
Pour les mener
Vers d'autres lendemains
REFRAIN:
Sens au coeur de la nuit
L'onde d'espoir
Ardeur de la vie
Sentier de gloire

Bonheurs enfantins
Trop vite oubliés effacés
Une lumière dorée brille sans fin
Tout au bout du chemin

REFRAIN:
Sens au coeur de la nuit
L'onde d'espoir
Ardeur de la vie
Sentier de la gloire

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Memory




Gosto muitíssimo disto. E de cantar isto, bom para a minha voz.
Também adoro e gosto de cantar "Lilly Marlene" que não é nada adequado à minha voz, tal como o fado e outros.
"But, Who cares? Whatever?" Não me pagam para cantar bem, pois não? Ah!

terça-feira, fevereiro 21, 2012

Not the Golden Gate





Bridge 25 de Abril (25th April)
Lisbon

"Uma pacata vida de rio" para citar Eça de Queirós

domingo, fevereiro 19, 2012

Carnaval em Portugal



Maria do Carmo Miranda da Cunha GO IH (Marco de Canaveses9 de fevereiro de 1909— Los Angeles5 de agosto de 1955), mais conhecida como Carmen Miranda, foi umacantora e atriz luso-brasileira.[nota 1] Sua carreira artística transcorreu no Brasil e Estados Unidos entre as décadas de 1930 e 1950


segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Whitney Houston R.I.P.




Mais uma que partiu. Aqui, num excerto do filme The Bodyguard - Guarda Costas


Deve ser maravilhoso ter uma profissão que só dá prazer aos outros, que desperta o afeto e a gratidão de tanta gente, mas, ironicamente, os muitos cantores que se suicidaram parecem não ter a mesma opinião... Ou talvez o seu mal estar resulte da angústia criativa...


Encontrei no Facebook uma frase muito interessante, que vou citar:


"When I stand before God at the end of my life, I would hope that I would not have a single bit of talent left, and could say, 'I used everything you gave me'."


Erma Bombeck


VER AQUI

domingo, fevereiro 05, 2012

Cantigas de Amigo - Amália e Natália Correia



Numa breve e criativa amizade entre Amália e Natália Correia, nasceu este disco, que, mais ou menos desconhecido,  vai agora ser reditado em CD. No dia 6 de Fevereiro.
Natália fez uma "tradução" / adaptação das cantigas de amigo para português atual, que permite a qualquer pessoa entender estas jóias da poesia medieval portuguesa. Ou Europeia.
Já conheço e aconselho vivamente.

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

Wislawa Szymborska



Lembro-me de ter lido, ou ouvido ler, há uns anos, estas palavras da poetisa Wislawa Szymborska, referindo-se a guerras no Leste:
"Foram-se os anéis, mas os dedos não ficaram".
Palavras difíceis de esquecer... 

A poetisa morreu, o que é sempre um dano.

Claro que terá ganho o Nobel sobretudo por ser Polaca, numa época em que a Polónia estava na moda por razões políticas e religiosas, mas passou, sem dúvida, à frente de outros escritores polacos.

A sua poesia é pouco poética, mas não tão pouco como a do Vasco Graça Moura. LOL.

Um poema


AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS


Digo a palavra futuro,
a segunda sílaba já se despede no passado.

Digo a palavra silêncio,
destruo-o.

Digo a palavra nada
construo algo que não se encaixa em qualquer inexistência.

( Versão de Luís Costa ) 

Retirada do blogue

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

A flor apaixona-se pela borboleta e pede-lhe que não fuja. É no tempo em que a tristeza era natural, as pessoas lidavam bem com a frustração... Não precisavam de confessar isso ao psiquiatra. Não havia anti-depressivos, ninguém se sentia estranho ou marginalizado por ser infeliz. Não como agora. 



quarta-feira, fevereiro 01, 2012


Dia cansativo. Vida cansativa.
Vou dormir e ler. Ou vice-versa. 
Nunca dormi tão bem como neste inverno. Abençoado Inverno.


Já coloquei mais um cobertor por causa da vaga de frio, anunciada aos quatro ventos pelos media... mas o frio não vem e morro de calor. E durmo. No Inverno do nosso (contentamento).


Tudo me tira o sono: a preocupação, a dor, a felicidade e a alegria. O entusiasmo...


Mas ninguém consegue fazer-me doer a cabeça. NEVER. A minha cabeça não dói por causa dos outros.


Abençoada cabeça! Abençoada noite! Abençoado Inverno! Abençoada noite de Inverno!


(Vou colocar aqui um pequeno texto dramático que escrevi, relativo a uma noite de Inverno. E outro, a uma noite de natal.). Escrevi-os há bué.

terça-feira, janeiro 24, 2012

o tempo de dormir é o tempo de esperar



Já semeei. Vou dormir, enquanto a seara cresce. Ou se estiola. Ou se multiplica. Enquanto as sementes se germinam. Enquanto a seara se transforma nas ondas marítimas... ou se perde, vazia, na imensidão dos mares.
o tempo de dormir é o tempo de esperar as transformações da terra e do mar.
Confiando.

segunda-feira, janeiro 23, 2012

Esconjuro pela luz - esconjuro pelo sal



Que se livre esta casa pela luz

Que se livre esta casa pelo sal

Que se livre esta casa pela luz
da Luz

Que se livre esta casa pelo sal
Do sal

Que se livre esta casa pela luz
Do sal

Que se livre esta casa pelo sal
da luz

Que se livre esta luz pelo sal 
Que se livre este sal pela luz do mar


Que se livre esta água pelo sal do mar
Que se livre esta água da maré 
Que se livre esta maré pela luz 
Que se livre o marinheiro pela luz do mar

sábado, janeiro 21, 2012

Cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz!





Hoje cantaram isto para mim, o que me deu grande alegria.
Já não me lembrava de que gosto de música brasileira e que até sabia isto de cor.

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Sim! - E eles a mim?



- Medo do mar? 

- Sim, claro que sim!
- Medo da vida? Medo da morte?

- Claro que sim! - Sim? 
- Sim!
- Medo dos homens? - E eles a mim? 
- Sim - Medo dos outros? 
- Sim! E eles a mim? 
- Sim. Medo, sim, claro que sim. 
- E eles a mim?
- Sim, claro que sim!

G. Nobre (Scherzo)

terça-feira, janeiro 17, 2012

"À Fragilidade da Vida Humana"



Esse baixel nas praias derrotado
Foi nas ondas Narciso presumido
Esse farol nos céus escurecido
Foi do monte libré, gala do prado.

Esse nácar em cinzas desatado
Foi vistoso pavão de Abril florido;
Esse Estio em Vesúvios encendido
Foi Zéfiro suave, em doce agrado.

Se a nau, o Sol, a rosa, a primavera
Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel
Sentem nos auges de um alento vago,


Olha, cego mortal, e considera
Que és rosa, Primavera, Sol baixel,
Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.

Francisco de Vasconcelos, Fénix III

Vem agora muito a propósito este poema intitulado ""À Fragilidade da Vida Humana"", sobretudo os dois primeiros versos. É um poema muito característico da estética Barroca, em que a elaboração formal e a musicalidade conseguida desse modo, quase obscurecem o sentido, tornando-o numa espécie de adivinha. É um soneto.

domingo, janeiro 08, 2012

Ano poético

2012 será seguramente um ano poético. Um ano estranho, talvez mesmo uma obra de arte.
Muitos ficarão à espera que o mundo acabe no último mês, outros, que tudo fique maravilhoso, o início de uma nova era de paz, abundância e felicidade. E essa nova era seria a última.
Estão também anunciados três dias de completa escuridão. 

Isto faz-me lembrar, é claro, uma coisa que tenho andado a  escrever, sem pensar em nada disto. E que partilhei aqui, mas apenas umas frases. Dos textos que escrevo, os que mais me agradam são constituídos por pequenas frases como essas, sobrepostas.

Navegamos na escuridão


Agora, há novidades. A circunspecta e lacónica monarquia japonesa abriu uma ou duas brechas, como esta da princesa Nakamaru. Deu muitas entrevistas sobre o que acontecerá em 2012. Como o Tsunami do Japão se assemelha às previsões apocalíticas e escatológicas...

AQUI: Alguns vídeos têm traduções em português e espanhol, todos são falado sem inglês.

Longe de mim propor alguma versão. Apenas partilho as que conheço.
Provavelmente, vamos todos acordar em 1 de Janeiro de 2013 com um mundo igual e igualmente monótono, com os mesmos políticos, a mesma crise, a  mesma mé... a mesma mera realidade.

domingo, janeiro 01, 2012

Feliz 2012! Que a Luz nos Ilumine





Que a luz vinda das estrelas, filtrada pelo conhecimento e refletida pela arte, nos ilumine a todos neste novo ano!

Feliz 2012!




Nota: (Cúpula da Basílica da Estrela, Lisboa)

sábado, dezembro 31, 2011

Feliz 2012



Já de outras vezes anunciaram que o mundo "ia si acabar", mas o mundo "não si acabou".


Como diz a Carmen Miranda. E já que não vai se acabar: "Ô Balancê Balancê"






Feliz Ano Novo de 2012

domingo, dezembro 25, 2011

Natal






Natal.
Posted by Picasa

sábado, dezembro 24, 2011

Noite de Natal

Era noite de Natal. Os rebanhos já tinham recolhido ao redil e os pastores, à lareira, confraternizavam cantando, comendo, bebendo e apreciando o calor do fogo, após o frio mortal que haviam vivido nas serranias.
Era uma noite de tempestade.
Só eu deambulava ainda pelas montanhas, perdido na neve, na chuva e no vento. Mas era maior o meu martírio interior, a tempestade dentro de mim. Pelo mal irreparável que tinha cometido, irremediável para sempre: eu matara um deus.
Matara um deus nascituro entre muitos milhares de crianças que mandara aniquilar. Mas as crianças e as mães das crianças e os pais das crianças e os soldados que tinham sido obrigados ao extermínio, nada disso me preocupava naquela noite de névoa, de temporal e de dor. Para mim. Herodes. Que importam essas pessoas sem valor? Quem poderia importar-se com elas? A história não, necessariamente. A História dos tempos só fala dos grandes homens e ... mal de mim, dos deuses também.
Qual será o castigo para um homem que matou um deus? Talvez mesmo um Deus único...
Não acredito na vida para além da morte. Acredito no que vejo, acredito que vou ganhar muito, nesta vida, com esta eliminação de todas as crianças, para impedir que as profecias se cumpram. Neste mundo.
Mas... e se houver vida para além da morte? E se houver um só deus? E se esse único deus for esse rapazito único que eu mandei matar? E se esse deus for esse que eu mandei matar e se conseguiu sobreviver? Se for um deus verdadeiro sobreviveu, necessariamene.
E eu? 
E eu, Herodes, que será de mim?




Texto em construção (Work in Progress).

sábado, dezembro 17, 2011

Cesária Évora

Cesária Évora morreu hoje.
E eu que recentemente me apaixonei por São Vicente, em Cabo Verde, e que esperava, um dia, ouvi-la cantar ao vivo, descalça, serena, uterina e telúrica, nessa ilha e nessa cidade. Como costumava fazer.
Não será já neste mundo nem neste tempo, mas não deixará de o ser na imaginação e na sôdade. Claro!





segunda-feira, dezembro 12, 2011


Baudelaire VideoActivité Hymne à la beauté por fle


Hymne à la beauté

Viens-tu du ciel profond ou sors-tu de l'abîme,
Ô Beauté ! ton regard, infernal et divin,
Verse confusément le bienfait et le crime,
Et l'on peut pour cela te comparer au vin.

Tu contiens dans ton oeil le couchant et l'aurore ;
Tu répands des parfums comme un soir orageux ;
Tes baisers sont un philtre et ta bouche une amphore
Qui font le héros lâche et l'enfant courageux.

Sors-tu du gouffre noir ou descends-tu des astres ?
Le Destin charmé suit tes jupons comme un chien ;
Tu sèmes au hasard la joie et les désastres,
Et tu gouvernes tout et ne réponds de rien.

Tu marches sur des morts, Beauté, dont tu te moques ;
De tes bijoux l'Horreur n'est pas le moins charmant,
Et le Meurtre, parmi tes plus chères breloques,
Sur ton ventre orgueilleux danse amoureusement.

L'éphémère ébloui vole vers toi, chandelle,
Crépite, flambe et dit : Bénissons ce flambeau !
L'amoureux pantelant incliné sur sa belle
A l'air d'un moribond caressant son tombeau.

Que tu viennes du ciel ou de l'enfer, qu'importe,
Ô Beauté ! monstre énorme, effrayant, ingénu !
Si ton oeil, ton souris, ton pied, m'ouvrent la porte
D'un Infini que j'aime et n'ai jamais connu ?

De Satan ou de Dieu, qu'importe ? Ange ou Sirène,
Qu'importe, si tu rends, - fée aux yeux de velours,
Rythme, parfum, lueur, ô mon unique reine ! -
L'univers moins hideux et les instants moins lourds ?

Tradução deste poema para português, autorada tradução: Graciete Nobre (em construção)


Vens tu do céu profundo ou sais tu do abismo,
Ó Beleza! O teu olhar, infernal e divino,
Verte confusamente o benefício e o crime,
E podemos, por isso, te comparar ao vinho.
Conténs no teu olhar o por do sol e a aurora
Mais perfumes difundes que a noite tormentosa
Teus beijos como um filtro, tua boca uma ânfora,
Fazem cobarde o herói, corajosa a criança

Provéns do negro abismo, ou descendes dos astros
O destino, encantado, segue-te como um cão
Semeias ao acaso a glória e os desastres
E governando tudo, não respondes a nada

Caminhas sobre os mortos, Beleza, que tu gozas
De tuas jóias o horror não é a menos bela
E o assassínio, entre os teus mais caros *berloques
No teu ventre amoroso dança amorosamente

A mariposa encantada voa para ti, ó candeia
Crepita, arde e diz Bendigamos a chama
O apaixonado, arfante, que enlaça a sua bela
Parece um moribundo acariciando a tumba.

Venhas tu do paraíso ou do inferno, que importa
Ó beleza, monstro enorme, assustador, ingénuo
Se teu olhar, teu riso, teus pés me abrem a porta
De um infinito que eu amo e nunca conheci?

De Satã ou de Deus que importa, anjo ou sereia
Se tu fazes, ó minha fada dos olhos macios
Com ritmo, perfume, luar, ó minha rainha única
Menos horrendo o universo, mais leves os instantes.

(Tradução "em progresso", aceitam-se sugestões)

sexta-feira, dezembro 09, 2011

A letra é linda, a música também: "Le papillon et la fleur"



"Le papillon et la fleur", música de Gabriel Fauré, poema de Victor Hugo


La pauvre fleur disait au papillon céleste:
Ne fuis pas!...
Vois comme nos destins sont différents, je reste.
Tu t'en vas!

Pourtant nous nous aimons, nous vivons sans les hommes,
Et loin d'eux!
Et nous nous ressemblons et l'on dit que nous sommes
Fleurs tous deux!

Mais hélas, l'air t'emporte, et la terre m'enchaine.
Sort cruel!
Je voudrais embaumer ton vol de mon haleine.
Dans le ciel!

Mais non, tu vas trop loin, parmi des fleurs sans nombre.
Vous fuyez!
Et moi je reste seule à voir tourner mon ombre.
A mes pieds!

Tu fuis, puis tu reviens, puis tu t'en vas encore
Luire ailleurs!
Aussi me trouves-tu toujours à chaque aurore
Tout en pleurs!

Ah! pour que notre amour coule des jours fidèles.
Ô mon roi!
Prends comme moi racine ou donne-moi des ailes
Comme à toi!



Victor Hugo, in "Les Chants du Crépuscule"Victor Hugo, in "Les Chants du Crépuscule"

sábado, dezembro 03, 2011

Le voisinage de la mer

"Le voisinage de la mer détruit la petitesse"

Stendhal, Mémoires d'un touriste

sexta-feira, novembro 18, 2011

Lisboa com chuva e com Tejo e com Tudo


Lisboa com chuva. Bar Le Chat qui Pêche, às Janelas Verdes

terça-feira, novembro 15, 2011

Crepúsculo dos Deuses

Um sorriso de espanto brotou nas ilhas do Egeu
E Homero fez florir o roxo sobre o mar
O Kouros avançou um passo exactamente
A palidez de Athena cintilou no dia
Então a claridade dos deuses venceu os monstros nos frontões de todos os templos
E para o fundo do seu império recuaram os Persas
Celebrámos a vitória: a treva
Foi exposta e sacrificada em grandes pátios brancos
O grito rouco do coro purificou a cidade
Como golfinhos a alegria rápida
Rodeava os navios
O nosso corpo estava nu porque encontrara
A sua medida exacta
Inventámos: as colunas de Sunion imanentes à luz
O mundo era mais nosso cada dia
Mas eis que se apagaram
Os antigos deuses sol interior das coisas
Eis que se abriu o vazio que nos separa das coisas
Somos alucinados pela ausência bebidos pela ausência
E aos mensageiros de Juliano a Sibila respondeu:
«Ide dizer ao rei que o belo palácio jaz por terra quebrado
Phebo já não tem cabana nem loureiro profético nem fonte melodiosa
A água que fala calou-se»*


Sophia de Mello Breyner Andresen
* Resposta do Oráculo de Delphos a Oríbase, médico de Juliano, 

sábado, novembro 12, 2011

As cores, as flores, os pássaros e os frutos

Se Deus existe e se foi ele que criou o mundo, devia ter muita imaginação nessa época.
Poderia haver menos variedade de pássaros, com menos variedade de flores, com menos variedade de frutos e de sabores dos frutos...
Até foram criadas flores com asas, flores voadoras como as borboletas e os beija-flor que nunca vi.
Mas as cores não são muitas. 
Quando comemos uma goiaba, vemos que sabem  a metal e a pedra. E a fruta. As ostras sabem a metal, a pedra e a mar.
Mas nunca vemos uma cor que nunca tivéssemos visto antes...

sábado, outubro 29, 2011

VIOLONCELO

VIOLONCELO

Chorai arcadas 
Do violoncelo! 
Convulsionadas, 
Pontes aladas 
De pesadelo...

De que esvoaçam, 
Brancos, os arcos... 
Por baixo passam, 
Se despedaçam, 
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam 
Caudais de choro... 
Que ruínas (ouçam)! 
Se se debruçam, 
Que sorvedouro!...

Trémulos astros... 
Soidões lacustres... 
– Lemos e mastros... 
E os alabastros 
Dos balaústres!

Urnas quebradas! 
Blocos de gelo... 
– Chorai arcadas, 
Despedaçadas, 
Do violoncelo.



Óbvia imitação do poema "Chanson d' automne" de Verlaine. Tanto no tema do instrumento musical, como na musicalidade simbolista, na constituição dos versos e no estilo.


Ver o poema de Verlaine no original e em tradução aqui, neste blogue

domingo, outubro 23, 2011

É assim que me sinto, às vezes: una furtiva lagrima



O GRANDE CARUSO


Una furtiva lagrima
negli occhi suoi spuntò:
Quelle festose giovani
invidiar sembrò.
Che più cercando io vo?
Che più cercando io vo?
M'ama! Sì, m'ama, lo vedo. Lo vedo.
Un solo instante i palpiti
del suo bel cor sentir!
I miei sospir, confondere
per poco a' suoi sospir!
I palpiti, i palpiti sentir,
confondere i miei coi suoi sospir...
Cielo! Si può morir!
Di più non chiedo, non chiedo.
Ah, cielo! Si può! Si, può morir!
Di più non chiedo, non chiedo.
Si può morire! Si può morir d'amor.





"Una furtiva lagrima", ópera L'Elisir d'Amore, autor: Donizetti