Esse baixel nas praias derrotado Foi nas ondas Narciso presumido Esse farol nos céus escurecido Foi do monte libré, gala do prado.
Esse nácar em cinzas desatado Foi vistoso pavão de Abril florido; Esse Estio em Vesúvios encendido Foi Zéfiro suave, em doce agrado.
Se a nau, o Sol, a rosa, a primaveraEstrago, eclipse, cinza, ardor cruel Sentem nos auges de um alento vago,
Olha, cego mortal, e considera Que és rosa, Primavera, Sol baixel, Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.
Francisco de Vasconcelos, Fénix III
Vem agora muito a propósito este poema intitulado ""À Fragilidade da Vida Humana"", sobretudo os dois primeiros versos. É um poema muito característico da estética Barroca, em que a elaboração formal e a musicalidade conseguida desse modo, quase obscurecem o sentido, tornando-o numa espécie de adivinha. É um soneto.
2012 será seguramente um ano poético. Um ano estranho, talvez mesmo uma obra de arte.
Muitos ficarão à espera que o mundo acabe no último mês, outros, que tudo fique maravilhoso, o início de uma nova era de paz, abundância e felicidade. E essa nova era seria a última.
Estão também anunciados três dias de completa escuridão.
Isto faz-me lembrar, é claro, uma coisa que tenho andado a escrever, sem pensar em nada disto. E que partilhei aqui, mas apenas umas frases. Dos textos que escrevo, os que mais me agradam são constituídos por pequenas frases como essas, sobrepostas.
Agora, há novidades. A circunspecta e lacónica monarquia japonesa abriu uma ou duas brechas, como esta da princesa Nakamaru. Deu muitas entrevistas sobre o que acontecerá em 2012. Como o Tsunami do Japão se assemelha às previsões apocalíticas e escatológicas...
AQUI: Alguns vídeos têm traduções em português e espanhol, todos são falado sem inglês.
Longe de mim propor alguma versão. Apenas partilho as que conheço.
Provavelmente, vamos todos acordar em 1 de Janeiro de 2013 com um mundo igual e igualmente monótono, com os mesmos políticos, a mesma crise, a mesma mé... a mesma mera realidade.
Era noite de Natal. Os rebanhos já tinham recolhido ao redil e os pastores, à lareira, confraternizavam cantando, comendo, bebendo e apreciando o calor do fogo, após o frio mortal que haviam vivido nas serranias.
Era uma noite de tempestade.
Só eu deambulava ainda pelas montanhas, perdido na neve, na chuva e no vento. Mas era maior o meu martírio interior, a tempestade dentro de mim. Pelo mal irreparável que tinha cometido, irremediável para sempre: eu matara um deus.
Matara um deus nascituro entre muitos milhares de crianças que mandara aniquilar. Mas as crianças e as mães das crianças e os pais das crianças e os soldados que tinham sido obrigados ao extermínio, nada disso me preocupava naquela noite de névoa, de temporal e de dor. Para mim. Herodes. Que importam essas pessoas sem valor? Quem poderia importar-se com elas? A história não, necessariamente. A História dos tempos só fala dos grandes homens e ... mal de mim, dos deuses também. Qual será o castigo para um homem que matou um deus? Talvez mesmo um Deus único... Não acredito na vida para além da morte. Acredito no que vejo, acredito que vou ganhar muito, nesta vida, com esta eliminação de todas as crianças, para impedir que as profecias se cumpram. Neste mundo. Mas... e se houver vida para além da morte? E se houver um só deus? E se esse único deus for esse rapazito único que eu mandei matar? E se esse deus for esse que eu mandei matar e se conseguiu sobreviver? Se for um deus verdadeiro sobreviveu, necessariamene. E eu? E eu, Herodes, que será de mim?
Cesária Évora morreu hoje. E eu que recentemente me apaixonei por São Vicente, em Cabo Verde, e que esperava, um dia, ouvi-la cantar ao vivo, descalça, serena, uterina e telúrica, nessa ilha e nessa cidade. Como costumava fazer. Não será já neste mundo nem neste tempo, mas não deixará de o ser na imaginação e na sôdade. Claro!
Viens-tu du ciel profond ou sors-tu de l'abîme, Ô Beauté ! ton regard, infernal et divin, Verse confusément le bienfait et le crime, Et l'on peut pour cela te comparer au vin.
Tu contiens dans ton oeil le couchant et l'aurore ; Tu répands des parfums comme un soir orageux ; Tes baisers sont un philtre et ta bouche une amphore Qui font le héros lâche et l'enfant courageux.
Sors-tu du gouffre noir ou descends-tu des astres ? Le Destin charmé suit tes jupons comme un chien ; Tu sèmes au hasard la joie et les désastres, Et tu gouvernes tout et ne réponds de rien.
Tu marches sur des morts, Beauté, dont tu te moques ; De tes bijoux l'Horreur n'est pas le moins charmant, Et le Meurtre, parmi tes plus chères breloques, Sur ton ventre orgueilleux danse amoureusement.
L'éphémère ébloui vole vers toi, chandelle, Crépite, flambe et dit : Bénissons ce flambeau ! L'amoureux pantelant incliné sur sa belle A l'air d'un moribond caressant son tombeau.
Que tu viennes du ciel ou de l'enfer, qu'importe, Ô Beauté ! monstre énorme, effrayant, ingénu ! Si ton oeil, ton souris, ton pied, m'ouvrent la porte D'un Infini que j'aime et n'ai jamais connu ?
De Satan ou de Dieu, qu'importe ? Ange ou Sirène, Qu'importe, si tu rends, - fée aux yeux de velours, Rythme, parfum, lueur, ô mon unique reine ! - L'univers moins hideux et les instants moins lourds ?
Tradução deste poema para português, autorada tradução: Graciete Nobre (em construção)
Vens tu do céu profundo ou sais tu do abismo,
Ó Beleza! O teu olhar, infernal e divino,
Verte confusamente o benefício e o crime,
E podemos, por isso, te comparar ao vinho.
Conténs no teu olhar o por do sol e a aurora Mais perfumes difundes que a noite tormentosa Teus beijos como um filtro, tua boca uma ânfora, Fazem cobarde o herói, corajosa a criança
Provéns do negro abismo, ou descendes dos astros O destino, encantado, segue-te como um cão Semeias ao acaso a glória e os desastres E governando tudo, não respondes a nada
Caminhas sobre os mortos, Beleza, que tu gozas De tuas jóias o horror não é a menos bela E o assassínio, entre os teus mais caros *berloques No teu ventre amoroso dança amorosamente
A mariposa encantada voa para ti, ó candeia Crepita, arde e diz Bendigamos a chama O apaixonado, arfante, que enlaça a sua bela Parece um moribundo acariciando a tumba.
Venhas tu do paraíso ou do inferno, que importa Ó beleza, monstro enorme, assustador, ingénuo Se teu olhar, teu riso, teus pés me abrem a porta De um infinito que eu amo e nunca conheci?
De Satã ou de Deus que importa, anjo ou sereia Se tu fazes, ó minha fada dos olhos macios Com ritmo, perfume, luar, ó minha rainha única Menos horrendo o universo, mais leves os instantes. (Tradução "em progresso", aceitam-se sugestões)
E Homero fez florir o roxo sobre o mar O Kouros avançou um passo exactamente A palidez de Athena cintilou no dia
Então a claridade dos deuses venceu os monstros nos frontões de todos os templos E para o fundo do seu império recuaram os Persas
Celebrámos a vitória: a treva Foi exposta e sacrificada em grandes pátios brancos O grito rouco do coro purificou a cidade
Como golfinhos a alegria rápida Rodeava os navios O nosso corpo estava nu porque encontrara A sua medida exacta Inventámos: as colunas de Sunion imanentes à luz O mundo era mais nosso cada dia
Mas eis que se apagaram Os antigos deuses sol interior das coisas Eis que se abriu o vazio que nos separa das coisas Somos alucinados pela ausência bebidos pela ausência E aos mensageiros de Juliano a Sibila respondeu: «Ide dizer ao rei que o belo palácio jaz por terra quebrado Phebo já não tem cabana nem loureiro profético nem fonte melodiosa A água que fala calou-se»*
Sophia de Mello Breyner Andresen * Resposta do Oráculo de Delphos a Oríbase, médico de Juliano,
Se Deus existe e se foi ele que criou o mundo, devia ter muita imaginação nessa época. Poderia haver menos variedade de pássaros, com menos variedade de flores, com menos variedade de frutos e de sabores dos frutos... Até foram criadas flores com asas, flores voadoras como as borboletas e os beija-flor que nunca vi. Mas as cores não são muitas. Quando comemos uma goiaba, vemos que sabem a metal e a pedra. E a fruta. As ostras sabem a metal, a pedra e a mar. Mas nunca vemos uma cor que nunca tivéssemos visto antes...
VIOLONCELO Chorai arcadas Do violoncelo! Convulsionadas, Pontes aladas De pesadelo... De que esvoaçam, Brancos, os arcos... Por baixo passam, Se despedaçam, No rio, os barcos. Fundas, soluçam Caudais de choro... Que ruínas (ouçam)! Se se debruçam, Que sorvedouro!... Trémulos astros... Soidões lacustres... – Lemos e mastros... E os alabastros Dos balaústres! Urnas quebradas! Blocos de gelo... – Chorai arcadas, Despedaçadas, Do violoncelo.
Una furtiva lagrima negli occhi suoi spuntò: Quelle festose giovani invidiar sembrò.
Che più cercando io vo?
Che più cercando io vo?
M'ama! Sì, m'ama, lo vedo. Lo vedo.
Un solo instante i palpiti
del suo bel cor sentir!
I miei sospir, confondere
per poco a' suoi sospir!
I palpiti, i palpiti sentir,
confondere i miei coi suoi sospir...
Cielo! Si può morir!
Di più non chiedo, non chiedo.
Ah, cielo! Si può! Si, può morir!
Di più non chiedo, non chiedo.
Si può morire! Si può morir d'amor.
Bientôt nous plongerons dans les froides ténèbres ;
Adieu, vive clarté de nos étés trop courts !
J'entends déjà tomber avec des chocs funèbres
Le bois retentissant sur le pavé des cours.
Tout l'hiver va rentrer dans mon être : colère,
Haine, frissons, horreur, labeur dur et forcé,
Et, comme le soleil dans son enfer polaire,
Mon coeur ne sera plus qu'un bloc rouge et glacé.
J'écoute en frémissant chaque bûche qui tombe ;
L'échafaud qu'on bâtit n'a pas d'écho plus sourd.
Mon esprit est pareil à la tour qui succombe
Sous les coups du bélier infatigable et lourd.
Il me semble, bercé par ce choc monotone,
Qu'on cloue en grande hâte un cercueil quelque part.
Pour qui ? - C'était hier l'été ; voici l'automne !
Ce bruit mystérieux sonne comme un départ.
II
J'aime de vos longs yeux la lumière verdâtre,
Douce beauté, mais tout aujourd'hui m'est amer,
Et rien, ni votre amour, ni le boudoir, ni l'âtre,
Ne me vaut le soleil rayonnant sur la mer.
Et pourtant aimez-moi, tendre coeur ! soyez mère,
Même pour un ingrat, même pour un méchant ;
Amante ou soeur, soyez la douceur éphémère
D'un glorieux automne ou d'un soleil couchant.
Courte tâche ! La tombe attend ; elle est avide !
Ah ! laissez-moi, mon front posé sur vos genoux,
Goûter, en regrettant l'été blanc et torride,
De l'arrière-saison le rayon jaune et doux !
Um dos meus poemas favoritos, de um dos meus poetas favoritos.
Tradução
Canto do Outono
I
Em breve iremos mergulhar nas trevas frias; Adeus, radiosa luz das estações ligeiras! Ouço tombar no pátio em vibrações sombrias A lenha que ressoa à espera das lareiras.
Em meu ser outra vez se hospedará o inverno: Ódio, arrepio, horror, labor duro e pesado, E, como o sol a arder em seu glacial inferno, Meu coração é um bloco rubro e enregelado.
Tremo ao ouvir tombar cada feixe de lenha; Não faz eco mais surdo a forca que se alteia. Minha alma se compara à torre que despenha Aos pés do aríete incansável que a golpeia.
Parece-me, ao sabor de sons em abandono, Que alhures um caixão se prega a toda pressa. Para que? - Ontem era o verão; eis o outono! Rumor estranho de quem parte e não regressa...
II
Amo em teu longo olhar a luz esverdeada, Doce amiga, mas hoje amarga-me um pesa, E nem o teu amor, o lar, a alcova, nada Vale mais do que o sol raiando sobre o mar.
Mas ama-me assim mesmo e cheia de ternura, Sê mãe para o perverso, o ingrato em todo caso; Sê, amante ou irmã, a efêmera doçura De um outono glorioso ou a de um sol no ocaso.
Breve é a missão! A tumba espera, ávida,à frente! Ah, deixa-me, a cabeça em teus joelhos pousada, Degustar, recordando o estio claro e ardente, Deste fim de estação a suave luz dourada!
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viuva, gracil, na escuridão tranquilla,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora
Na orgia, ao longe, que em clarões scintilla
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viuva, gracil, na esuridão tranquilla.
E a orchestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detem. Só modulada trila
A flauta flebil... Quem há-de remil-a?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?
Só, incessante, um som de flauta chora...
Camilo Pessanha (1867-1926)
Este poema é para a Maria, por ser um dos seus favoritos.
A Nadinha é a minha pseudo-heterónima. É a protagonista das minhas viagens marítimas, as reais e as sonhadas.
Quanto a mim, considero-me uma neófita na vida e em tudo.
Todos os textos e fotos aqui apresentados, ou são originais, ou é indicado o seu autor.